André Cunha Leal

André Cunha Leal

Recuando no tempo, até ao início dos anos 80, uma das minhas primeiras memórias tem precisamente que ver com música. Não devia ter mais de três anos. Já na altura o meu pai contava-me histórias onde o solista do “Poème” de Chausson seria o protagonista de uma qualquer aventura imaginada por ele. Mas não é do “Poème” que resulta essa memória tão longínqua. Lembro-me que estava na sala e os meus pais estavam a ouvir um disco com os grandes coros de ópera. Fiquei absolutamente fascinado pela bigorna do “Trovador”, pela marcha triunfal da “Aida”, pelo coro à boca fechada de “Madama Butterfly” e pelos coros do “Navio Fantasma”. Mais tarde fiz outra grande descoberta: a Carmen de Bizet cantada pela meio-soprano Grace Bumbry. Foi uma paixão tal, que gastei o vinil de tanto o ouvir. Paralelamente a isto, cresci a ver os grandes musicais americanos na televisão. Se as canções que marcavam estes filmes me transmitiam uma enorme sensação de felicidade, terá sido também com estes musicais que acabaria por descobrir o poder narrativo da música sem palavras – tudo fazia sentido no “Americano em Paris” dançado por Gene Kelly. Começava então a desenvolver as minhas primeiras noções musicais, confirmadas por Leonard Bernstein nos seus concertos comentados. Na minha família, crescia sob a influência de todo o género de músicas: o meu avô Artur ficava horas nos seus banhos de imersão a ouvir os discos de José Carreras; a minha avó Ester na biblioteca a ouvir a música sinfónica de Wagner, Beethoven e Mahler; o meu pai com a sua paixão dividida entre a música clássica e o jazz, mas também a bossa nova que me chegava através de uma cassete de um concerto da Maria Bethânia com o Caetano veloso e o Chico Buarque; a música típica da Beira-Baixa que me chegava da Vila de Aranhas, que é a terra da Lurdes que nessa altura tomava conta de mim; a minha mãe que me mostrava também através da música a minha herança luso-cabo-verdiana com as mornas do Bana e com os Fados da Amália. Um dia que nunca mais me esquecerei, a minha mãe e as minhas tias, emocionadas, cantavam uma morna do meu bisavô e assim descobria com alguma emoção que também havia quem tivesse escrito música na minha família.

Foi no meio de tudo isto que fui construindo aquela que é a minha personalidade. Entretanto aprendi Piano… Aos 12 anos descobri a Temporada de Música da Fundação Calouste Gulbenkian com um “Elias” apresentado na Basílica da Estrela. O Fascínio foi tal que me tornei num adepto, quase bairrista da Orquestra Gulbenkian, para o jovem André, “a melhor orquestra do mundo”. Em 1994 comprei o meu primeiro CD: “O Barbeiro de Sevilha” com Maria Callas. Estávamos em plena ascensão do mercado dos CD e lembro-me de um dia ir a caminho da casa da minha avó Guta e do meu avô Luís a pensar que através dos CD que comprava ali na Valentim de Carvalho do Fonte Nova poderia realizar um desejo que entretanto se tinha apossado de mim durante a escuta de um programa de rádio: ter acesso a todas as músicas e todos os compositores de todo o mundo. Mal sabia no que me estava a meter! Daí a deixar de lanchar na escola de forma a poupar o dinheiro que a minha mãe me dava para comer, para comprar CD, foi apenas uma questão de semanas – hoje, sei que jamais chegarei a rico dado o meu apetite voraz por música. Enfim… aspiro a outras riquezas.

Mas 94 foi também muito importante por causa da “Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura”, onde pude ver as primeiras óperas representadas e, ainda por cima, portuguesas: “O Doido e a Morte” de Alexandre Delgado e “As Damas Trocadas” de Marcos de Portugal. Começava aí uma nova paixão: a da música portuguesa. Desde então alimento o sonho de algum dia poder vir a colaborar para uma definitiva consagração dos nossos compositores e das nossas obras. Mas esse ano foi mais do que descobrir os compositores portugueses: esse ano passaria por mim deixando uma profunda admiração pelos artistas portugueses. Em 1995 entrei no liceu D. Pedro V que seria crucial para o desenvolvimento desta paixão pela música. Apesar de estar no liceu para estudar ciências, as melhores recordações que tenho desses anos, foi o tempo que passei no Coro dirigido pelo professor João. Se já tinha a experiencia do piano, no liceu D. Pedro V descobria o prazer de fazer música em conjunto, algo que ainda hoje considero inultrapassável. Foi no liceu, e graças ao coro, que pude trabalhar pela primeira vez com uma orquestra e pisar um “palco a sério” : o Teatro da Trindade. Para além do coro, o liceu D. Pedro V tinha outra vantagem: dava para ir a pé até à Fundação Calouste Gulbenkian. A partir daí tornava-me num ávido consumidor de concertos, não faltando a nenhum: Terças e Sextas na Gulbenkian ao que acrescentei os da Metropolitana na Aula Magna e no Palácio de Queluz e as óperas do São Carlos. Fazia planos na cabeça para grandes festivais com todos os músicos portugueses….

A entrada na Faculdade foi também mais um passo em direção à música: entrava no Coro da Universidade de Lisboa. Para além do reportório que trabalhei com os maestros José Robert e Pedro Teixeira, fiquei a conhecer uma outra face da música, ou melhor, do espetáculo: logo no primeiro ano ajudei a montar e produzir uma série de concertos e espetáculos para serem apresentados na Aula Magna. Nascia assim uma nova paixão: a da produção – ter uma ideia, trabalhá-la e envolver as pessoas numa permanente construção (e às vezes desconstrução) até ao momento do aplauso final, resulta numa sensação avassaladora. Nesse ano, em 1999, enquanto estudava começava também a trabalhar. Ia para a FNAC do Colombo, na altura essencialmente uma loja de livros e discos. Desde então tenho feito um pouco de tudo, sempre à volta da música: trabalhei no Gabinete de Actividades Culturais da Reitoria da Universidade de Lisboa, ajudei a produzir espetáculos e temporadas, voltei a uma loja de música, fui aprender canto, cantei como coralista em grupos de câmara, em grandes obras corais-sinfónicas e em óperas e, entretanto, cheguei à Antena 2, onde também já fiz um pouco de tudo e à qual me tenho dedicado desde 2003/2004, rodeado de música e de pessoas que gostam de música. Desde Setembro de 2012 que dei mais uma passo nesta vida ligada à música ao ter sido convidado para consultor da Administração do Centro Cultural de Belém para a música erudita, o que me tem permitido desde então estreitar laços com a comunidade musical e, ao mesmo tempo, aprofundar toda a minha experiência de trabalho com a música.