Helder Moutinho

Solista FMJ 2015
Helder Moutinho

Helder Moutinho

Solista FMJ 2015

Biografia

Helder Moutinho nasce em Oeiras, em 1969, e é provavelmente desta intimidade diária com o mar que emerge talvez a mais marcante característica da carreira deste fadista: uma capacidade multifacetada de entender e vivenciar a sua música, cantando, compondo, gerindo, produzindo, enfim, revelando definitivamente um horizonte alargado, de margens bem firmes e claras e caudal seguro e rico.

Da sua família, de tradição manifestamente fadista, ganha não apenas o gosto natural pelo fado, acompanhando-a desde sempre e convivendo nos meios mais tradicionais deste gênero musical, mas acima de tudo a sede de tomar parte nesse universo tão apaixonante.

É no final da sua adolescência, depois de se identificar com estilos musicais mais diversificados, que o fado começa a ganhar uma importância cada vez maior na sua vida. E é talvez por esse motivo que o contacto com Lisboa se revela inevitável

É por essa altura também que toda a arte adormecida no artista começa a despertar. Nas tertúlias fadistas, pela noite dentro e com outros amantes do fado, começam a surgir as primeiras letras de sua autoria, que viria a gravar mais tarde no seu primeiro álbum “Sete Fados e Alguns Cantos” – editado em 1999, com destaque na revista da Strictly Mundial (Feira Internacional de World Music) e em várias críticas da imprensa nacional e internacional.

Apesar das muitas apresentações nas mais variadas salas de espectáculos europeias, a sua internacionalização é um fenómeno que nem o próprio entende bem. Certo é que a atitude descomprometida do início dá lugar a um envolvimento mais profundo e concreto, partindo assim para uma carreira sólida e comprometida com o seu modo de vida.

“Luz de Lisboa”, o seu segundo disco (2004) era aguardado com expectativa, sabendo-se que desta vez assinava a maior parte das composições, assim como a própria produção. Recebeu o prémio de Melhor Disco do Ano (prémios Amália Rodrigues), vários convites para espectáculos em algumas das salas mais importantes do globo, e algumas das melhores críticas da especialidade.

Depois de um interregno de quatro anos, Helder Moutinho regressa às edições com “Que fado é este que trago”, sucessor do premiado “Luz de Lisboa” de 2004 (Prémio Amália Rodrigues 2005).

Produzido por António Pinheiro da Silva, o álbum conta com a participação de vários músicos da nova geração do fado e tem direcção musical do jovem e talentoso guitarrista Ricardo Parreira, que também ficou a cargo da direcção musical.

Em “Que fado é este que trago”, Helder Moutinho conduz-nos a uma viagem única por uma história imaginária acerca do fado: “de onde poderá ter vindo, por onde pode ter passado e para onde poderá ir”. Uma viagem através de 15 temas divididos em três paragens: nos fados clássicos/tradicionais, nos fados-canções/fados descritivos, terminando pelos fados originais escritos na actualidade.

O tema de abertura que dá nome ao disco, “Que fado é este que trago” introduz-nos ao universo de um dos três grandes fados clássicos: que compõe a trilogia clássica do fado junto do Fado Mouraria e do Fado Corrido. O tema começa com uma introdução musical inspirada no Fado Menor, fundindo-se a seguir a uma melodia original escrita pelo músico luso-angolano Nando Araújo, vulgo Yami. O tema retrata poeticamente os vários elementos que vestem o fado de ontem e o fado de hoje, propondo-nos uma questão infinita e intemporal: “de onde veio, por onde andou e para onde vai (o fado)”

“Perdi-me nos olhos teus”, com letra Helder Moutinho e melodia do Fado Mouraria, apresenta-nos algumas das introduções criadas para este fado pelos mais emblemáticos guitarristas do fado ao longo da sua história. Grandes guitarristas da guitarra portuguesa criaram a sua própria forma de tocar este fado, tanto na arte instrumental como na arte do acompanhamento.

Também faz parte do percurso do Fado Mouraria uma forma de escrever, bastante concorrida entre os poetas populares entre o início do século passado até meados dos anos 60. Neste fado, Helder e o seu grupo apresenta-nos este percurso como um tributo aos poetas e instrumentistas antigos, seguindo o conceito poético de como se escrevia na altura, com palavras originais, contando assim uma história dentro da história, como se fosse “Mais um Fado no Fado”.

A história prossegue com “A Saudade”, um fado tradicional da segunda metade do século passado, com poema em linguagem popular e tradicional e música do guitarrista Fontes Rocha.

A seguir, ouve-se “Labirinto ou não foi nada”, com letra de David Mourão Ferreira e música de Helder Moutinho (Fado Labirinto). Se no passado alguns dos mais importantes compositores vieram a fazer fados tradicionais ao longo dos anos, hoje podemos continuar a criar fados tradicionais, respeitando a sua estrutura: quadras, decassílabos, sextilhas, quintilhas, versículos e alexandrinos com melodias sem refrão. Neste caso, quadras num novo fado tradicional.

“Olhos leais” foi escrito sobre melodia do tradicional Fado Artilheiro, um fado musical e poeticamente antigo. Além de ser executado pelo clássico trio de fado, neste fado ouvem-se também percussões e acordeão, propondo ao ouvinte a seguinte reflexão: até onde será possível adicionar outros instrumentos ao fado tradicional sem fazer com que este deixe de ser fado em toda a sua essência?

Na segunda paragem, conhecemos Lisboa, musa dos grandes poetas do fado, e seus tradicionais bairros através de dois fados-canções/fados descritivos: “Vielas de Alfama”, uma feliz parceria de Max e Artur Ribeiro e “Rua do Meio”, um fado composto por Helder Moutinho e o guitarrista Manuel de Oliveira. Nesses dois fados passeamos por Alfama, pela Madragoa e Lapa. Em “Rua do Meio”, Helder revive os tempos em que morou na Rua do Meio à Lapa, contígua à Madragoa, bairro onde nasceu e cresceu o seu pai.

A partir do oitavo tema, dá-se início a última paragem da viagem que nos propõe Helder Moutinho: um passeio musical pelos originais do nosso tempo, pelos fados da nova geração de músicos que escrevem para fado. “Fado à janela” é o primeiro destes seis temas, composto pelo jovem fadista Marco Oliveira; “Diário que me resta” é um original do talentoso “viola” Diogo Clemente e “E num segundo”, um tema escrito por Luiz Caracol, membro do grupo pop Luiz e a Lata.

Os restantes temas são parcerias de Helder Moutinho com outros músicos da nova geração do fado como o baixista do seu trio, Nando Araújo “À espera de uma paixão”, Miguel Monteiro (“Caixinha de música”), Ricardo Parreira (“Esta voz”), além de duas parcerias com o guitarrista Manuel de Oliveira: “Tenho uma onda no mar” e “Nem ventos nem madrugadas”.

Entre o tema que dá inicio ao disco e que se poderá considerar como um prefácio num livro, e o último, que poderá ser considerado uma conclusão, poderemos ter uma questão e uma resposta.